sábado, 15 de novembro de 2008

Viver é não conseguir



Fiquei com esse verso girando na minha cabeça. “Viver é não conseguir”. Não consegui parar de pensar, quando tudo o que importa é sentir. Interromper o fazer febril, para entregar-me ao fluxo. Mas são três horas da manhã e já perdi a conta das xícaras de café. Olho novamente para a pilha de papel, o trabalho a terminar e o verso ganha outros contornos. Quero esquecer certos fatos, mas talvez baste não lembrar. Não lembrar do que me disse à porta do cinema, não lembrar do teu sorriso, do gosto da tua pele contra a minha... A névoa já se havia dissipado naquela manhã. Fizera tudo sem fome, numa forma de alienação, de um não calado, sem a excitação do desconhecido nem a doçura de um mapa já percorrido. Quando acordei, achei que estivesse pensando melhor e, sem enxergar, saí, deixando o vazio para trás. E agora estou aqui, diante de mais uma xícara, observando o fumegar do café na noite fria. Viver é não conseguir. As letras dançam na minha frente e me afasto em direção à janela. É não conseguir. Não conseguir pensar em outra coisa ao olhar o oceano, ouvindo o arrastar de chinelos ausentes fazendo a caminhada de sempre após a janta, sentar em um dos bancos preferidos e conversar até dar vontade de voltar para casa. Afasto essas visões, mas outras ocupam o lugar. Penso ouvir coisas, talvez um riso e... mas é só alguém na rua. Não, não era você. Nem era eu quem o esperava voltar de viagem. Olho os espaços em branco na estante, e entrego-me a reorganizar as faltas. E a pilha de papéis continua lá. Jogo o café fora e resolvo fazer alguma coisa para comer. Logo o dia vai amanhecer e não concluí o trabalho. Talvez fosse melhor pintar o cabelo. Penso isso como se a tinta fosse penetrar no couro cabeludo e tingir meus pensamentos. Rio comigo mesma. Ataco os papéis. Carros e ônibus fluem lá fora, algum vizinho coloca uma música alta, a chuva fina corta a vidraça...

Assim, sem esforço, sem pensar, sentir que não te sinto mais.

(Iêda Lima)


Imagem: Gustave Caillebotte. Rua Parisiense, Dia Chuvoso. 1877. Instituto de Arte de Chicago.

17 comentários:

  1. Iêda, gostei das coisas por aqui e agradeço o link já devidamente retribuído.

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  2. Obrigada, Kovacs. Adoro seu blog.

    Aguardo suas visitas!

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  3. Adorei! Nunca tinha parado pra pensar que viver era não conseguir...
    Beijos!

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  4. Oi Lilian,

    Eu também não, até me deparar com o poema de Fernando Pessoa que coloquei na pauta deste mês. Fiquei muito incomodada.

    Deu no texto acima. ;-)

    Visitei o seu blog. Gostei muito.

    bjs

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  5. Olá, Ieda!
    O seu blog é muito bacana e, esse texto é ótimo.
    Uma belíssima reflexão.:)Abraços!

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  6. Olá Rita,

    Obrigada! Em breve publicarei mais textos meus por aqui.

    Abraços!

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  7. Iêda, querida!... Você é simplesmente maravilhosa! Nos pega de surprêsa, e, como quem nada quer, vai descortinando uma paisagem real, palpável, criando um clima adequado. Pena não se estender por muitas páginas adiante. Com esta facilidade, desenvoltura de verbo e singular destreza com a caneta ( E fui testemunha disso em tempos idos... ) você dá brilho e cor ao que escreve.

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  8. Oi Mauro,

    Muito obrigada! :-)

    Bons tempos aqueles...

    bjao,
    Iêda

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  9. Muito obrigada, G&M, volte sempre.

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  10. Iêda, fui atrás do Fernando Pessoa, e agora é mais um a matutar sobre suas palavras. Parabéns pelo texto, que nos instigou a 'bater a poeira', e seguir em frente.
    Não é a toa que nosso blog do varejo tem por lema 'palavra emprestada de Pessoa':
    -se navegar é preciso, então ....
    Abraços, Edu
    (ah, te encontrei via diHITT - bem-vinda à comunidade...)

    Basta pensar em sentir
    Para sentir em pensar.
    Meu coração faz sorrir
    Meu coração a chorar.
    Depois de parar de andar,
    Depois de ficar e ir,
    Hei de ser quem vai chegar
    Para ser quem quer partir.

    Viver é não conseguir.

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  11. Oi Eduardo,

    Foi essa poesia mesmo que eu havia publicado na coluna "Pauta" no mês de novembro. Com mudança do mês, troquei de tema. Não é uma poesia que incomoda a gente? Em mim, pelo menos, esse verso grudou e não me deixou em paz até escrever esse texto.

    Fico feliz que tenha gostado do texto e obrigada pela sua visita.

    Abraços,
    Iêda

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  12. Europa é tudo igual mesmo hehe quando olhei essa foto jurava que era aqui no centro de Vienna.
    Bjs querida

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  13. Olá Cris,

    Obrigada pela visita :-)

    abraços,
    Iêda

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  14. olá, lêda!

    seu blogé muito maneiro e seu
    é muito bom.
    um abraço.

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  15. descupe, eu quis dizer que
    seu blog é muito maneiro e
    seu texto é ótimo.

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  16. Olá Luiz,

    Obrigada por sua visita!

    Que bom que gostou daqui e dos textos. Volte sempre.

    Abraços,
    Iêda

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