sábado, 18 de abril de 2009

Blogagem Coletiva - Quem foi seu Monteiro Lobato?

Vanessa, do blog Fio de Ariadne, convidou a participar da blogagem coletiva em homenagem ao dia do livro. Ela nos questiona sobre como formar leitores, e quer saber quem – em nossa vida – incentivou o nosso amor pela leitura, quem foi nosso Monteiro Lobato.


Não sei qual foi o pontapé inicial de tudo. Talvez ver meu pai ler todos os dias tenha feito com que eu, aos três anos, me interessasse em inventar estórias a partir das figuras das revistas em quadrinhos. Estórias que eu contava para meus irmãos e meu pais. E lá fui eu para escola aprender a ler. Desde então, durante a minha infância, meu pai frequentemente me presenteava com livros. Ele foi meu Monteiro Lobato. E de Lobato foram alguns desses livros. Eu era apaixonada pelo Sitio do Picapau Amarelo e seus personagens. Foi uma porta para o universo fantástico ali ao lado – com personagens que aprendi no folclore nacional, como o saci, a cuca, o boitatá, o curupira; com sabugo de milho virando Visconde... Não teria mais que cruzar uma floresta distante em busca de fadas e castelos. Era só abrir a porta.

terça-feira, 14 de abril de 2009

O Bode


Era um barulho infernal, desses meio surdo, repetitivo, constante. Invadiu os meus sonhos e me tirou de lá, despertando minha manhã antes do relógio. Entrava por baixo da nuca, pelos ouvidos, executando algum tipo de vibração que causava erupções entre os neurônios. Nada de deliciosas sinapses, embaladas pela harmonia. Apenas a monotonia ensurdecedora. Nada da improvisação do jazz. Somente o tédio limpando o rejunte entre as lajotas. O chão já estava quase mudando de cor, tornando-se um bege esbranquiçado, com manchas que à distância pareciam nódoas circulares causando brotoejas no piso. A manhã avançava. Coloquei The Doors para tocar na esperança de abafar o ruído. “People are strange...”. Era o terceiro dia em que a máquina trabalhava à toda. Não conseguia entender qual era a expectativa de ainda limpar aquele chão. Consegui escapar das outras vezes, mas desta, não teve jeito. Fui à janela admirar a azáfama no quintal do vizinho. A dona dava ordens à empregada e ao ajudante, que esfregavam o chão com vassouras enquanto ela perseguia as bactérias com o jato dágua superpotente. No lado de cá, Jim continuava acendendo meu fogo e me dava alguma folga para a minha mente funcionar. A máquina parou para almoçar. Tive uma falsa alegria. O zunido voltou a encher o ar, ficando ali intermitente e uma oitava mais baixo o resto da tarde; quando finalmente reinou o silêncio... Ah, o silêncio!! Uma maravilha pontuada apenas por aqueles barulhinhos familiares que nos indicam que o mundo está vivo e girando – um carro que passa ao longe, uma porta que bate, um passarinho, alguém que acabou de entrar no prédio... e o espaço, e a amplidão que o silêncio traz. O bode saiu.

(Agora, algum louco, na certa chapado, grita em todas as variações possíveis o nome desta cidade. É até musical, o danado.)

(Iêda Lima)


Imagem obtida do clipart do powerpoint.

segunda-feira, 30 de março de 2009

A cidade de ontem



A cidade de ontem sob camadas e camadas da cidade de hoje. Imagens sobrepostas que descasco em busca daquele momento em que o riso cristalino cortou o sol da manhã. Era um verão. O primeiro biquini ia passear na areia, junto com o baldinho e a pá. O calor era capaz de fritar os pés, mas não àquela hora do dia. Chapéus, óculos, água. A meio caminho ficava a árvore, debaixo da qual se descansaria após o passeio de bicicleta e de onde se vê o mar quebrar incansavelmente na pedra. Ainda está lá. O que terá feito o mar à pedra durante todo este tempo? Não existe mais a calçada que sofria com as rodas dos patins embalados pelo vento noturno. Bifurcou-se, mudou de curvas, ganhou uma rua e perdeu o banco onde sentados sonhamos. A brasa que fervia o óleo que fritava o acarajé traçou um arco, desgarrando-se do balanço da sombra dos galhos entrelaçados. Espalhou-se no meio da praça. E os filhos sentem o gosto do dendê, observando as moças que passam, filhas de outros passos que camadas antes estiveram ali e em breve levam netos a andar de velocípede. O constrói e desmancha dos circos, dos parques, dos palcos pulsa na areia, cada vez se inventando um adereço. O caminho até a escola parece tão mais distante agora. Na boca, o sabor da banana real que só quem comeu sabe. Viro a esquina e encontro com a aula de piano, com a curtição que era experimentar todos os sons logo que a professora se afastava. Os primeiros carnavais - mortalhas, caretas, fantasias, blocos, bandas, clube... músicas que não tocam mais. Sinto gosto de sal na mão. Dou-me conta de que estivera contando ondas por horas e ainda não havia percorrido metade das paredes da memória. Esta, como um grande mural de mim mesma, expunha-me à visitação. Caótica, embaralhada, mosaico de Tempos, que sentam juntos à hora do almoço fazendo a maior algazarra; projetam-se no espaço sobre a cidade visível, e apertam-me os olhos tentando reconhecer os traços dos transeuntes. Cartões postais, fotografias, fragmentos de vozes boiando no interstício entre os neurônios e preservados em impulsos elétricos, que vez por outra me dão um choque na base da nuca. Fazem isso só para me recordar de ajustar o foco e registrar novas imagens. Cheiros também. Cheiros são importantes, como o perfume que usava outro dia e que o deixava... não, não era outro dia. Rio, pensando que a cozinha daquele apartamento tinha um sentido totalmente diferente para você. Faço sinal para que a menina me leve até o outro lado, enquanto me ajeito na cadeira. Fico feliz por lembrar e por esquecer.


(Iêda Lima)
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Imagem - montagem a partir de foto do clipart do powerpoint

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Blogagem Coletiva - "O livro da minha vida"


Depois de um longo intervalo, mudança de cep e outras coisitas, volto a publicar meus escritos aqui. O convite da Vanessa (blog Fio de Ariadne) para participar da blogagem coletiva sobre “O livro da minha vida” fez com que eu lembrasse da minha infância e de ir para a biblioteca da escola na hora do recreio para ler a coleção de contos infantis com as estórias de Andersen, Grimm, Perrault... Até hoje me encantam a Polegarzinha, o Soldadinho de Chumbo, a Vendedora de Fósforos, Branca de Neve, o Gato de Botas, João e Maria, o Flautista de Hamelin, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho, a Roupa nova do Imperador, o Patinho Feio... Na verdade, o encanto por essas estórias começou mesmo antes de aprender a ler, quando fui com minha mãe visitar uma amiga dela. Os filhos dessa amiga me deixaram com um livro bem encadernado, colorido, e fiquei bastante tempo ali olhando aquelas figuras, imaginando as estórias que elas contavam. Mas o mistério só foi resolvido tempos depois, na biblioteca da escola. Além desses clássicos dos contos infantis, eu tenho muito carinho por um outro livro da minha infância: “O menino do dedo verde”, de Maurice Druon, que conta sobre um menino chamado Tistu e seu dom de fazer nascer flores onde coloca o dedo. Ele muda a vida das pessoas. A fábrica de canhões torna-se uma fábrica de flores, e a cidade de Mirapolvora passa a se chamar Miraflores. O jardineiro Bigode é seu conselheiro e Tistu terá que lidar com sua morte. Fiquei com saudade quando acabou. Outros livros também deixaram suas marcas, mas estes têm um lugar especial.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008


O barulho da porta batendo ainda ecoava. Havia tentado esquecer aquela cena, mas os detalhes insistiam em se gravarem na memória, repetindo-se e repetindo-se, pesando sobre o acelerador. Por que, tantas vezes, um olhar atravessado, uma fagulha mínima, acabava em um turbilhão? Ficava se perguntando o que havia feito de errado. Afinal, não proporcionara sempre o melhor? Queria tanto que pudessem conviver em paz! Mas não, eles nunca estavam satisfeitos, por mais que ela se esforçasse, por mais que ela deixasse de fazer para si... Estava cansada de tudo aquilo. O que importava era a marca!

Parou o carro no sinal e examinou o outdoor. Quem sabe não era isso que ela precisava? Umas semanas em um spa (sim, isso mesmo, se-ma-nas!!) e depois... ah, depois faria como Shirley Valentine, iria para a Grécia e até nunca mais... Riu balançando os cabelos, eles não acreditariam. Acelerou novamente e agora estas novas idéias é que não lhe saíam da cabeça. Vinha economizando para dar a eles alguma coisa importante...

Havia quase uma hora que rodava à toa pela cidade, caraminholando esses pensamentos. Estacionou, bateu a porta do carro resoluta: daquele dia em diante, o jogo seria outro.

(Iêda Lima)

Imagem obtida do clipart do powerpoint.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A ausência...



Perturba
se não notas

Machuca
se não sentes

E ela está ali
no canto da sala
condensando o vazio

(Iêda Lima, 2007)


Imagem obtida do clipart do powerpoint.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Blogagem Coletiva – Coisas do meu Brasil 2

Coisas do meu Brasil. Cores, sons, cheiros. Uma memória de várias cidades onde morei ou passei de viagem. Feiras. Desde criança achava uma delicia passear nas feiras das cidadezinhas do interior, quando viajava com meu pai. Cada feira era um mundo novo, tinha algo a ser descoberto. Uma fruta, um objeto de artesanato, uma cena engraçada ou inusitada. E isso ficou. Continuei adorando ir às feiras, não só essas do interior, com fumo de rolo e tudo, mas também aquelas de artesanato, de antiguidades que se têm na cidade grande.

Esta foto é daqui.

A recordação desses momentos me remete a dias ensolarados, a um céu azul, a uma alegria, a pessoas queridas. E a uma boa comida. Mas devo dizer que dias chuvosos também são bons. Lembro de ir com uma amiga na feira da Praça Benedito Calixto que ocorre aos sábados em São Paulo. Choviscava e ameaçava mais. Fila para o restaurante mineiro. Fomos ouvir o chorinho na praça, maravilhoso. Comemos acarajé. Passeamos pelas barracas de antiguidades. E eu, que acho gente muito interessante, simplesmente adoro a diversidade de tipos que se vê em um lugar assim. Lembro dessa praça em dias ensolarados também, e com menos fila pro restaurante. Falando de São Paulo, no domingo gostava de ir à feira do MASP. Adorava tanto as barracas com antiguidades, como as de artesanato. A parada obrigatória era para comer numa barraca de japoneses que vendiam yakissoba e tempurá. Sou fã do tempurá. Tenho uma amiga gaúcha que também frequentava essa feira do Masp quando morava em Sampa. Quando fui visitá-la em Porto Alegre, levou-me para conhecer a feira do Brique da Rendenção. Adorei. O dia estava lindo, as pessoas com seu chimarrão, o artesanato, tudo. Em Belo Horizonte não se pode deixar de ir à feira Hippie, ou feira de Arte e Artesanato da Av. Afonso Pena. Mas vá cedo. Bem cedo. Essa feira tem de tudo: artesanato, bijuterias, sapatos, bolsas, comida... E um mundo de gente. No trecho onde a feira acontece tem o Palácio da Artes, com sua loja de artesanato, exposições e outros eventos. Em Ilheús, onde nasci e vou nas férias, gosto de passear nas feiras que se montam na avenida no verão, com artesanato, roupas, comida... É muito bom andar na beira-mar, encontrar os amigos, e dar umas voltas na feira.

E na sua cidade, como é a feira que tem neste domingo? Me convida, que eu vou...

Feira do Brique

Esta foto é daqui.

Feira do Brique

Esta foto é daqui.

Feira do Brique - Veja mais aqui e aqui .


Feira Hippie de BH

Esta foto é daqui.



Feira da Pça Benedito CalixtoEsta foto é daqui.

Não podia deixar de colocar fotos de Ilhéus. Embora eu não tenha fotos de feira, coloco fotos onde se pode ver a av. Soares Lopes que abriga estas feiras. As fotos são de Mauro Varandas, que as enviou para mim.






Não pude deixar de colocar esta. Por que será que eu gosto tanto de azul?


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terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Espelhos


Ajeitou a mecha de cabelo que insistia em cair. Nunca tinha se visto daquela maneira. Assim, daquele ângulo. Vinha descobrindo que cada um mostrava um lado diferente. Às vezes, sobreposições. Mas as sobreposições eram boas, quer dizer, era bom que acontecessem – davam substância ao ponto. A primeira coisa que via eram os olhos. E aquilo a engolia. Era um negócio, um arrepio que não sabia explicar. Sentia-se ora desnuda, ora pelo avesso. E ficava observando as costuras, onde poderia dar uma entrada, fazer ajustes, cortar pedaços... O que mais aprendia era onde botar brilho, acender umas luzes, trazer mais para frente, mais para perto de si mesma de modo que não pudesse esquecer. Era fundamental não esquecer do lado bom, porque o outro ela achava sozinha. Parecia que em alguns momentos só enxergava ele. E ai não tinha brilho algum. Ia murchando, murchando, murchando... uma coisinha chocha, sem sal, perdida na insignificância. Uma vez havia sido salva por aquele olhar que lhe seguia nua, como se nunca houvesse visto algo assim. Era uma tensão quase palpável, quase uma entidade, um ser com vida própria ali entre eles. Em diversas ocasiões o olhar vinha em uma palavra ou duas. E essa sensação de se descobrir outra naquele reflexo, estranha, mas ela mesma, uma releitura de si – essa sensação alimentava uma curiosidade quase antropofágica sobre quem era. Lembrava do personagem de Pirandello que vive uma loucura lúcida ao se perceber um, nenhum, cem mil – ela também era aquela ela que imaginava de si, era nenhuma daquelas que os outros achavam que ela era, e era todas. Mas ao olhar essas imagens, queria fazer uma colagem, amalgama-las, fundi-las e emergir una, inteira e de todas as faces. Ajeitou a mecha mais uma vez. Piscou e sorriu. Mergulhou naqueles olhos que sorriam de volta.

(Iêda Lima)

Imagem recortada a partir de imagem do clipart do powerpoint